A disparada do dólar, que superou na semana passada a marca de R$ 4, adia a volta da inflação para o centro da meta de 4,5% para depois de 2017. Além disso, aumenta a pressão sobre o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2016, que corre o risco de superar o teto da meta de 6,5%, segundo economistas ouvidos pelo Estado. Para este ano, o impacto do dólar já começa a aparecer nos preços do atacado, sobretudo nas matérias-primas. Mas o repasse ao consumidor deve ser gradual e atenuado pela recessão.
“Se o câmbio continuar no patamar de R$ 4, a perspectiva de inflação para o ano que vem estará mais comprometida”, afirma Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia da USP. Como a economia real trabalha com uma certa defasagem, o efeito da alta do câmbio nos custos deve aparecer mais para frente. Além disso, se o câmbio continuar pressionado, será necessário reajustar a gasolina, seguindo a nova política da Petrobras. Esses fatores explicam, segundo Heron, porque o efeito do dólar sobre os preços no varejo será mais intenso em 2016, apesar de ser esperada a desaceleração do IPCA por causa da perda de fôlego dos preços dos serviços e das tarifas.
Para este ano, ele acredita que o resultado da inflação, da ordem de 9,5%, vai depender muito mais do comportamento dos alimentos. Quanto aos outros itens, Heron acredita que a recessão vai segurar o repasse.
Essa também é a avaliação do economista da LCA Consultores, Fábio Romão. Até agora, ele vê reflexos do repique do dólar nas commodities agrícolas. O índice de preços CBR para alimentos disparou em reais a partir de julho, tendo reflexos sobre as cotações agropecuárias no atacado em meados de agosto e no início deste mês.
O índice de preços agropecuários do atacado da FGV encerrou agosto com alta de 0,58%, mas subiu 1,35% em 30 dias até 10 setembro. A projeção de Romão é que o IPA agropecuário encerre este mês com alta de 3%. “Os desdobramentos desse movimento do atacado desembocarão, de maneira defasada e irregular, no varejo em setembro.” Ele espera alta de 0,43% para o grupo alimentos e bebidas no IPCA-15 este mês, após deflação de agosto (-0,01%).
Salomão Quadros, superintendente adjunto de Inflação do Ibre/FGV, observa que o impacto do câmbio já pode ser notado na variação nos preços de materiais para manufatura no atacado. Neste mês, até o dia 10, os preços desse grupo subiu 1,37%, após avançar 0,93% em agosto. “O repasse vem ocorrendo gradualmente”, diz Quadros. No varejo, ele ressalta que os primeiros efeitos do câmbio aparecem nos alimentos, como o pão francês, cujo preço subiu 0,66% no IPCA-15 deste mês, puxado pelo trigo importado. A carne, outro produto com preço balizado pelo mercado internacional, está 0,58% mais cara.
Meta
Apesar de o Banco Central reafirmar que pretende trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% no fim de 2016, levando em conta que a recessão será forte para brecar os repasses, é consenso entre os economistas que esse resultado será muito difícil de ser atingido nesse espaço de tempo. A consultoria Tendências projeta inflação de 4,5% para 2018 e a LCA acredita que a inflação volte para essa marca a partir de 2019. Já Heron acha possível trazer o IPCA para 4,5% em 2017, desde que seja feito o ajuste fiscal. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Fontes:
Texto: www.infomoney.com.br
(Por ESTADÃO) Matéria Original:
http://www.infomoney.com.br/mercados/cambio/noticia/4310006/disparada-dolar-afeta-ipca-2016?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=nlmercados
Foto: Internet
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]]>Inflação pressionada
Se a inflação for estável, as pessoas incorporam as mudanças nos preços. Tais mudanças se tornam previsíveis e atrapalham pouco ou mesmo não atrapalham os negócios, a produção e as vendas. O problema é que essa estabilidade nunca dura muito tempo, pois o fundamento da inflação é um conflito distributivo, o que exige que os preços de uns aumentem mais rapidamente do que de outros. A tendência para a aceleração da inflação é um fato.
Quando a inflação começa a ser pressionada para cima, as pessoas passam a incorporar essa aceleração e acabam acelerando mais ainda a variação dos preços. Como os reajustes salariais, por questões institucionais, não acontecem na mesma velocidade que os reajustes dos preços, o poder de compra começa a cair. Isso faz com que a demanda pelos produtos também caia.
Dificilmente as pequenas e as médias empresas têm algum grau de monopólio e a implicação disso é que a taxa de lucros delas cai junto com a capacidade de compra do consumidor. Quem tem poder de monopólio consegue manter a taxa de lucro aumentando preços, pressionando os seus compradores, compensando a queda na demanda.
Já a PME irá comprar menos (pois vende menos), mas irá pagar mais caro e, provavelmente, não conseguirá repassar todo esse aumento no preço de venda. Adicionalmente, os insumos para sua produção também terão seus preços aumentados. Há, portanto, uma tendência para o esmagamento dos lucros das PMEs tanto pelo lado da demanda, pelo produto/serviço (com queda), quanto pelo da oferta/custos (com aumento, inclusive dos salários).
Câmbio desvalorizado
A mesma dificuldade vem do câmbio. Nos períodos inflacionários, aumentam as importações em razão dos produtos ficarem mais baratos no mercado externo, o movimento esperado é de desvalorização do câmbio (quando o dólar fica mais caro). Com a desvalorização, os produtos importados ficam mais caro, acentuando os impactos inflacionários.
Ou seja, ou o câmbio não se altera, podendo levar a um déficit na balança comercial ou se altera e cria-se pressão inflacionária. Se a empresa é exportadora, esse impacto negativo fica atenuado e pode até ser benéfico.
O padrão, no entanto, não é esse. A desvalorização do câmbio aumenta os preços dos insumos importados e acentua a queda no poder de compra dos consumidores, já que esses produtos estão espalhados na economia e na cesta de consumo da população. A desvalorização, assim, prejudica a empresa não exportadora pela demanda (que cai) e pela oferta (custo que sobe).
O que o empreendedor deve fazer?
Tanto no caso da inflação e sua aceleração quanto no caso da desvalorização cambial, uma parte do tempo do empresário terá que ser destinada a defesa contra a inflação, ocasionando perda de produtividade da empresa. Terá que dispender tempo e esforços para manter o capital de giro em níveis reais constantes, o que significa aumentar o nível nominal deste. Poderá, por exemplo, tentar antecipar a produção, mas isso significa aumentar os estoques, exigindo um nível ainda maior de capital de giro.
O empresário terá que encontrar um equilíbrio entre uma necessidade maior de capital de giro e o custo deste. É como subir uma ladeira andando de bicicleta: maior esforço e, provavelmente, menor velocidade.
Fontes
Texto: EXAME.com
Ana Paula Paulino da Costa
Foto: Thinkstock
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